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Amor ou sobrevivência? Ciência explica por que macaco rejeitado pela mãe 'adotou' pelúcia

Sem mãe, macaco bebê ganha amigo de pelúcia e viraliza Recentemente, a imagem do pequeno Punch, um macaco-japonês rejeitado pela mãe em um zoológico de Ic...

Amor ou sobrevivência? Ciência explica por que macaco rejeitado pela mãe 'adotou' pelúcia
Amor ou sobrevivência? Ciência explica por que macaco rejeitado pela mãe 'adotou' pelúcia (Foto: Reprodução)

Sem mãe, macaco bebê ganha amigo de pelúcia e viraliza Recentemente, a imagem do pequeno Punch, um macaco-japonês rejeitado pela mãe em um zoológico de Ichikawa (Japão), comoveu o mundo ao mostrar o filhote abraçado a uma pelúcia. Mas até que ponto essa atitude se assemelha aos hábitos e instintos humanos? Especialistas responderam. 📱 Receba conteúdos do Terra da Gente também no WhatsApp Para além da cena que derrete corações nas redes sociais, o caso revela a complexa engrenagem biológica e emocional que une os primatas e os desafios de interpretar a natureza sem o filtro da "humanização". No balanço das árvores ou no isolamento de um recinto de zoológico, o primeiro instinto de um primata ao nascer é um só: agarrar-se. A sobrevivência, para esses animais, tem a textura do pelo materno. Mas antes de parar por aqui, é preciso entender os motivos e os desdobramentos desse sentimento. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: VÍDEO: Maquiadora viraliza ao 'se transformar' em aves brasileiras; incluindo raridades BOAS NOVAS: Pesquisa da USP revela que própolis verde tem potencial contra Alzheimer e Parkinson FUGINDO DO CONCRETO: Projeto tem passeios gratuitos para observar aves em parques de SP Pequeno macaco punch adotou a pelúcia como sua "mãe"; entenda. Divulgação / Zoo de Ichikawa (instagram) O peso da rejeição A rejeição materna, embora pareça cruel aos olhos humanos, possui raízes biológicas que a ciência tenta decifrar. "A rejeição tem várias causas. Muitas vezes o parto é muito complicado, a fêmea sente dor e há um processo de rejeição", explica Alcides Pissinatti, médico veterinário e chefe do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro. Segundo o PhD em biologia animal, fatores como doenças ocultas na mãe ou até a manipulação humana, que altera o cheiro do filhote, podem romper o vínculo sagrado entre progenitora e cria. Sobrevivência em forma de abraço Para um primata, o "abraço" não é apenas um gesto de carinho, mas um equipamento de segurança. O professor Fabiano R. de Melo, do Departamento de Engenharia Florestal da Universidade Federal de Viçosa, pontua que o que chamamos de abraço é, tecnicamente, uma "relação afiliativa" que reforça os laços do grupo. "Um filhote abraçado à mãe é sobrevivência. Ele precisa estar agarrado ao corpo dela, senão ele cai, morre, é predado", afirma Melo. Neste cenário, a pelúcia oferecida a Punch funciona como um "substituto neurológico". "Um objeto de pelúcia faz o cérebro desse infante entender que ele está no corpo de sua mãe ou de seu pai", completa o professor, lembrando que em diversas espécies o cuidado parental é compartilhado. Representante da Ikea e diretor do zoológico de Ichikawa celebram doação de brinquedos Ichikawa Zoo A psiquê e o aprendizado A ausência do contato físico e social precoce deixa marcas profundas. Para Pissinatti, o isolamento pode resultar em animais mais agressivos ou com dificuldades severas de interação futura "Se o animal não tem esse contato, ele pode ter dificuldades em expor qualquer tipo de afeto. Isso tem implicações sérias na psiquê do indivíduo". Além do trauma emocional, há o déficit educativo. Sem os pais, o filhote perde as "aulas" de caça, alimentação e as complexas regras de convivência do grupo. É o que os especialistas chamam de baixo aprendizado social, que pode comprometer até a capacidade reprodutiva do animal na fase madura. Macaquinho Punch g1 O perigo de humanizar Embora a empatia humana ajude na preservação, os especialistas alertam para a "onda PET" e a tendência de projetar sentimentos humanos em animais selvagens. "Estamos humanizando tudo. As pessoas que vivem em cidades acabam criando situações fictícias e absurdas de convívio com a fauna", alerta Fabiano Melo. Ele defende que a verdadeira educação ambiental passa por entender que a natureza tem regras próprias, muitas vezes distantes do nosso conceito de "romantismo". Punch adotou macaquinho de pelúcia após ser rejeitado por grupo Ichikawa Zoo Diversidade e Harmonia A necessidade do contato varia entre as espécies. Enquanto os Muriquis são famosos por seus abraços frequentes que mantêm a paz no bando, outras espécies, como os Micos-leões, apresentam dinâmicas de cuidado específicas que a ciência ainda estuda para entender comportamentos pós-parto. No fim, seja através da "catação" (o grooming) ou do simples calor de um corpo — ainda que de pelúcia —, o contato é o fio invisível que mantém a harmonia dos primatas. Para Punch, a pelúcia foi o primeiro passo para a segurança; o próximo, e mais importante, será aprender a ser macaco entre os seus iguais. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente